dijon79_artOk, sejamos sinceros: se você está aqui, e disposto a ler um texto sobre a história da Fórmula 1, você é um cabeça de gasolina. E, como todo representante deste povo, posso garantir que, quando ouve falar de:

– Dijon, não lembra imediatamente da mostarda ou do Kir-Royale;

– Jean-Pierre Jabouille, talvez não ligue o nome à primeira vitória turbo da história;

– 1979, sua primeira recordação não é o ano de nascimento de Jennifer Love Hewitt, Kate Hudson ou Rosario Dawson (ou, se preferir, Channing Tatum, Adam Levine ou Aaron Paul);

– Grande Prêmio da França, que nesse ano aconteceu no dia 1º de julho, não lembra de mais nada além dA Batalha; talvez até demore um pouco para poder dizer quem ganhou, ou qual posição valia.

Então, não espere grandes novidades no artigo desta semana. O queStu Povick Arnoux Villeneuve 1979 duel eu vou contar aqui está gravado no fundo do seu cérebro, quem sabe até ocupando o espaço que o faria lembrar de sua data de aniversário de casamento, ou da resposta àquela questão que lhe faria passar na prova. Vamos voltar à batalha de Dijon, àqueles minutos em que os corações de todos os presentes no circuito francês esqueceram de bater e ninguém percebeu.

Um pouco de contexto: o GP de Mônaco (vencido por Jody Scheckter, que se tornaria campeão mundial aquele ano) aconteceu no final de maio. Após aquela corrida, James Hunt anunciou que aquela vida de ganhar salário, bebida, mulheres e alta velocidade estava muito desgastante, e abriu mão do salário, abandonando a Fórmula 1 e sendo substituído por Keke Rosberg. Os suecos Ronnie Peterson e Gunnar Nilsson estavam mortos – o primeiro depois de um acidente em Monza e o segundo de câncer – e a falta de dinheiro havia cancelado o GP da Suécia. Então, depois de um intervalo de cinco semanas, teríamos uma corrida, agora na França.

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Ambos já se davam bem, mas Arnoux e Villeneuve acabaram se tornando grandes amigos depois deste dia.

E o vento parecia soprar a Marselhesa, ou La Vie En Rose. Desde Silverstone, em 1977, a Renault vinha correndo com motores turbo contra os aspirados das grandes escuderias, porém sem muita alegria. Se as máquinas eram encapetadas e atingiam velocidades assustadoras, a dificuldade em administrar o lag e principalmente a durabilidade dos mesmos os impedia de se sobrepor, com vitórias fatalmente se dissolvendo no ar em meio à fumaça branca que apelidava os carros de “chaleiras amarelas”. Só que, naquele ano os RB10 estavam mais robustos, e a equipe francesa tinha dois pilotos: Jean-Pierre Jabouille e René Arnoux.

jabouilleOu seja, recapitulando: equipe Renault (francesa), dois pilotos franceses, motor que fazia biquinho, pneus Michelin, combustível Elf… Não foi à toa que “les têtes de l’essence” (merci, traducteur Google) lotaram o circuito. Estima-se que mais de 100.000 pessoas estiveram lá, testemunhando um dos momentos mais impressionantes do esporte a motor. Até o clima deu aquela ajudada: depois de um sábado de sol e calor, que viu uma dobradinha Jabouille-Arnoux na primeira fila (na sequência, tínhamos Villeneuve, Piquet, Scheckter e Lauda), no domingo o tempo estava nublado e fresco, ou seja, clima turbo.

Mas um outro francófono queria jogar Perrier no baguette: GillesVilleneuve 1979 Villeneuve sabia que seu motor Ferrari não era páreo para os Renault num circuito de pura velocidade, mas não se intimidava. “Três ou quatro pontos não me interessam hoje. Estou aqui para a vitória”, disse no domingo de manhã; “sei da importância de um bom começo, e tenho que achar alguma forma de ao menos separar as Renault na primeira volta”.

E, na largada, foi além: pisou fundo no da direita, puxou de lado e fez a primeira curva na frente. Jabouille tinha largado até bem, mas não Rene Arnoux 1979tracionou direito. Pior fez Arnoux, que caiu para nono lugar. O canadense sabia que tinha que abrir a maior vantagem possível, e fez voltas matadoras na sequência, sendo acompanhado de longe por Jean-Pierre. Mais atrás, a outra Renault vinha recuperando terreno. No final da segunda volta Villeneuve abria dois segundos na liderança, mas Arnoux já tinha passado Alan Jones e Jacques Laffite. Na volta seguinte, deixou Lauda para trás. Na volta dez, estava em quarto lugar, e na 15 era o terceiro, após ultrapassar a Ferrari do sul-africano.

Gilles continuava mantendo a ponta, só que o ritmo que vinha impondo iria cobrar seu preço em borracha. Na segunda metade da corrida, o carro já estava mais arisco que o lendário cavalo rampante. Ele comentou depois: “meu carro estava em todo lugar; nas curvas para a direita, eu saía de traseira; naquelas às esquerda, de frente”. Enquanto isso, as Renaults pairavam sobre a pista; na volta 46 Jabouille fez a ultrapassagem e, como contou depois, “eu lembrava que uma vez haviam me dito o quanto era essencial, após uma ultrapassagem, ir o mais rápido possível por três ou quatro voltas; isso te manteria a vantagem e tiraria a moral do cara que ficou para trás. Era um bom conselho”. Ele simplesmente fez o assobio do motor subir uns 15 decibéis e abriu três segundos em cinco voltas.

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E Arnoux vinha chegando. A Ferrari, a esta altura, tinha pneus virtuais, não sobrando “macarrãozinho” nem para um prato de miojo, quanto mais para uma bela pasta.

A corrida ia chegando ao fim, os franceses estavam de pé e empurrando seus compatriotas com gritos e aplausos. Na volta 77 de 80, Jean-Pierre abriu a reta principal… alguns retardatários… e Arnoux apareceu à frente de Villeneuve!!!! Ele tinha conseguido! A Ferrari era um carro de drift com um motor pior, a dobradinha estava garantida! A multidão delirava – e nem imaginava o que iria presenciar.

Acontece que o carro francês estava pensando em se render. Um problema na bomba de combustível impedia Arnoux de abrir vantagem sobre Gilles como seu companheiro de equipe havia feito, e para o ferrarista esta oportunidade não podia ser desperdiçada.

1979Dijon

Vieram as duas últimas voltas. Dois giros em um circuito de pouco mais de 3.800m, um dos mais curtos do campeonato, geralmente feitas em menos de 1:10.00. Só que esse par específico de voltas já dura 36 anos. Tudo era pista: zebras, grama, parte do carro do adversário. Ambos desligaram completamente qualquer tipo de percepção do que havia à sua volta, inclusive o próprio instinto de sobrevivência. Ninguém sabe exatamente quantas vezes eles bateram rodas, entraram de lado nas curvas, saíram e voltaram da pista e se tocaram novamente. Não importava se o lugar onde estavam era um ponto de ultrapassagem ou se cabiam dois carros ali, para Villeneuve e Arnoux aquilo era uma linha reta na Champs Elysees.

Faltando duas voltas, Gilles mergulha – a palavra é apropriada, pois após a curva à direita vinha uma bela descida – por dentro, com fumaça subindo de suas quatro rodas, o carro balançando. Aquilo certamente iria acabar mal. Mas de repente a Ferrari está novamente em segundo. Rene não acredita. O narrador francês, no autódromo, fica sem adjetivos para gritar – e olha que a língua é rica neles. Mas Arnoux não pode deixar isso assim.

A Ferrari não consegue descolar. O francês está tão colado na traseira do canadense que em um minuto está no retrovisor direito, no instante seguinte aparece no esquerdo, e tenho certeza de que pelo menos uma vez seu reflexo apareceu nos dois ao mesmo tempo. Novamente à beira daquele precipício, é a vez de Arnoux esquecer como se faz uma curva, aparecer ao lado de Villeneuve, fazendo a Ferrari fritar os aros (borracha era uma mera lembrança ali), tracionar contra qualquer lei da física e se manter roda com roda até a próxima curva e além. A curva seguinte é para a esquerda, e não é possível dois carros entrarem juntos ali. A ação de verdade vai começar. Eles se tocam, Arnoux faz a curva por fora – por fora mesmo, saindo da pista (hoje tomaria trocentas punições, teria que devolver a posição, pagar uns trocos e se naturalizar canadense), mas toma a frente, apenas para ver Villeneuve à sua direita, novamente tentando passar por fora. Eles tocam-se mais uma vez, a Ferrari está à frente, mas a curva é para a esquerda e Arnoux tem o melhor traçado, recuperando novamente a vice-liderança. Villeneuve embica tanto o carro para manter o traçado que é óbvio que vai rodar, mas o óbvio tirou férias naquele dia e ele não roda. A próxima curva é à direita, a Renault está na frente, tem o melhor traçado, mas Arnoux a faz muito aberta – Gilles não acredita naquele espaço todo, coloca o carro ali e passa novamente. É a subida do morro, e a Ferrari está em segundo. Villeneuve mantém o carro e cruza a linha de chegada 0,2 segundo à frente de Arnoux.

Gilles e Arnoux fizeram a volta de desaceleração lado a lado, saudando um ao outro, enquanto a torcida em delírio os aplaudia. Quando pararam, ambos saíram do carro, apertaram as mãos e depois se abraçaram. Ninguém culpou ninguém por nada.

The podium (L to R): Rene Arnoux (FRA) Renault, third; Jean-Pierre Jabouille (FRA) Renault, winner for the first time and first win for Renault and turbocharged engine; Gilles Villeneuve (CDN) Ferrari, second. French Grand Prix, Rd 8, Dijon-Prenois, France, 1 July 1979. BEST IMAGE

Jabouille venceu, mas quem ganhou naquele dia foi a Fórmula 1

O francês disse: “eu não estou triste com a terceira colocação; eu aproveitei cada centímetro desta corrida, Gilles dirigiu de maneira fantástica e Jean Pierre venceu. Justo!”

As palavras de Villeneuve não foram diferentes: “Isto foi muito divertido! Eu cheguei a pensar que iríamos nos matar, você sabe, porque quando dois pilotos começam a entrelaçar rodas desse jeito alguém acaba em cima de alguém, mas nós não batemos. Não estou cansado, eu poderia fazer isto por mais 40 voltas”. Dizem que, ao ouvir isto, os pneus de sua Ferrari derreteram.

Coragem, perícia, controle total da sua máquina e a confraria dos apaixonados por velocidade. Isto é Fórmula 1.

PS: hoje é aniversário de Dan Aykroyd, Carl Lewis, Ruud van Nistelrooy, Liv Tyler e até de Daniel Ricciardo e eu gostaria imensamente de escrever um pouco sobre qualquer um deles. Mas vou deixar vocês aqui assistindo novamente a essa pintura.


Valesi

Velho o suficiente para reclamar com propriedade, não tenho esperanças de que alguém me leve a sério. Ferrarista e fã de Jack Daniels, não necessariamente nessa ordem. Pago no máximo 40 pratas por uma foto do Button cometendo um crime.

7 comentários

Cristiano Seixas · 1 de julho de 2015 às 7:32

Foi a ultima prova que assisti na barriga da mamãe !!! Se ela estava próxima a tv na hora da prova, tenho certeza que me revirei dentro do utero para ouvir melhor a narração, que após algumas consultas no youtube, acho que foi de Leo Batista.

Fabiano Forte · 1 de julho de 2015 às 7:50

Cara, eu fui lendo o texto e vendo os carros mentalmente… Show! Muito bom mesmo!!

Joshué Fusinato · 1 de julho de 2015 às 7:56

Prendi a respiração lendo, como acontece toda a vez que revejo esse pega! Sensacional Valesi!

Jordan Bandeira · 1 de julho de 2015 às 20:23

Nasci sete anos após este pega, mas me arrepio toda vez ao ver esse vídeo. Sua descrição da batalha também me emocionou, Valesi.

Sobre os aniversariantes do dia, Liv Tyler merece minha menção especial. 😉

Rafael Amico · 3 de setembro de 2015 às 16:59

Valesi…. porque diabos eu ainda não tinha lido isso?! Esse pega é fantástico, mas com sua descrição foi ainda melhor! Foi de arrepiar, emocionante e hilária ao mesmo tempo! Muito obrigado pelo ótimo post!

    Carlos Del Valle · 3 de setembro de 2015 às 17:58

    Esse “ataque banzai” aos 01:05 é puro Villeneuve com a faca nos dentes!

Em terra de cego... - Podcast F1 Brasil · 2 de julho de 2015 às 7:47

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