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Willy Mairesse era belga como os Smurfs, rápido como Jacky Ickx e Thierry Boutsen, corajoso como Tintim e competitivo como o demônio.

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Não era exatamente um cara sorridente.

Nasceu no dia 01º de outubro de 1928 em Momignes, na fronteira com a França. Aos 25 anos, a convite de um amigo, participou da prova de Endurance de ida e volta entre Liege e Roma, e se apaixonou pela velocidade. Não conseguiu terminá-la por problemas mecânicos, mas no ano seguinte foi 8º colocado com um Peugeot 203. Em 1955 foi campeão na classe de 1300 cc. Comprou um Mercedes 300 SL em 1956 e foi correr lá em Nurburgring, chegando em terceiro lugar numa corrida da categoria GT que fazia parte do final de semana do GP da Alemanha. Neste mesmo ano, novamente na Liege-Roma-Liege, foi campeão geral. Tinha 28 anos, e seus resultados começaram a chamar a atenção.

O órgão máximo do automobilismo belga era a ENB (Ecurie Nationale Belge); como eles não serviam só para cobrar anuidade e fazer carteirinhas, seu diretor Jacques Swaters resolveu arrumar um assento de maior destaque para o compatriota.

19ced11c53c62d49b7021bd857dac11bAcontece que o tal do Jacques acumulava cargos, e além de diretor da ENB era também o representante da Ferrari na Bélgica. Desta maneira, o comendador Enzo acabou sendo alertado de que havia um piloto rápido nas terras de Poirot, e acabou o contratando para correr pela Scuderia na Endurance em 1960. Aliás, o contrato também o presenteava com um cockpit na Fórmula 1, e Willy acabou fazendo sua estreia no seu quintal, no trágico GP da Bélgica daquele ano – que viu as mortes de Chris Bristow e Alan Stacey, além do acidente grave de Stirling Moss. Mairesse escapou incólume fisicamente, mas a zica do final de semana atingiu a transmissão de seu carro, causando seu abandono.

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Terceira posição em Monza, 1960. Seu único pódio na F1.

Ao final da temporada obteve seu melhor resultado na Fórmula 1 em Monza, subindo ao pódio atrás de Phil Hill e de Richie Ginther (um belo 1-2-3 da Ferrari em casa). Fora dos monopostos, ainda conseguiu boa classificação na Targa Florio e foi campeão do Tour de France Auto de Endurance naquele ano.

Em 61, Mairesse participou de apenas uma corrida pela Ferrari (na Alemanha), abandonando antes do final devido a um acidente. Também correu uma vez pela Lotus, na França, e outra pela Equipe Nationale Belge, que usava um chassi Lotus em Spa, mas sem conseguir ver a quadriculada. Em compensação, na Endurance continuava incomodando, conseguindo o bicampeonato na Tour de France Auto e um belíssimo segundo lugar nas 24h de Le Mans, ao lado do britânico Mike Parkes.19719_lowres

No ano seguinte, mais sucesso: vitória na Targa Florio ao lado do jovem Ricardo, um dos hermanos Rodriguez. E o GP da Bélgica de Fórmula 1, talvez a corrida que sintetizou seu estilo, marcando a ferro as palavras do americano novato Peter Revson, que disse:

– “Sua concentração era imensa, sua face ficava franzida e rubra, com as sobrancelhas unidas; seus olhos quase saltavam das órbitas e mudavam de cor. Parecia o diabo em pessoa”.

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Um diabo necessário

 

Novamente em casa ao volante de uma Ferrari, Mairesse classificou-se na sexta colocação; ganhou o quinto lugar na largada e começou a perseguir os primeiros, quando começou sua batalha com a Lotus do britânico Trevor Taylor. Ambos miravam a segunda posição, e na 19ª volta eles estavam lado a lado, batendo rodas, ultrapassando e sendo ultrapassados. Taylor levou a melhor no início, mas acabou perdendo a traseira do carro e Mairesse ultrapassou, porém sem conseguir abrir vantagem, levando a LotusBelgica 62 colada atrás de si. Foram sete voltas dessa briga obstinada, até que na Blanchimont houve outro toque entre eles, em um ponto de alta velocidade. Taylor foi de cara com um poste e Willys subiu um barranco, até dar meia volta e acabar de cabeça para baixo na beira da pista. Seu carro começou a incendiar, porém ambos os pilotos escaparam praticamente ilesos. Mairesse não se abalou e continuou a competir, conseguindo um quarto lugar em Monza, neste mesmo ano. Aliás, sua capacidade de sair de tantos acidentes quase apenas com escoriações e mantendo a gana por acelerar novamente acabaram por render-lhe o apelido justificado de “Wild Willy”.

Phil Hill saiu da Ferrari ao final de 62, e avisou: a concorrência e os estilos de John Surtees, Lorenzo Bandini e Willys Mairesse, os pilotos oficiais da Scuderia na F1 e na Endurance acabaria mal. “- Eles irão competir tanto um contra o outro que irão cometer erros potencialmente fatais”.Willy_Mairesse

Mairesse venceu as 12 horas de Sebring e, ao lado de Surtees, os 1000 km de Nurburgring. Ambos lideraram em Le Mans até a hora 15, mas um incêndio após o reabastecimento os tirou da prova, durante o turno de Willy. O fogo tomou conta do carro que bateu logo em seguida, um pouco antes dos Esses, mas o tinhoso belga saiu de lá andando, arranhado e com algumas queimaduras, disposto a voltar quando pudesse.

Nessa ele não teve culpa, mas que deve ter sido o inferno lá dentro, deve.

Nessa ele não teve culpa, mas que deve ter sido o inferno lá dentro, deve.

Entretanto, se na Endurance tudo estava indo bem, na Fórmula 1 o belga sentia-se pressionado: depois de abandonos em Mônaco e na Bélgica, chegou ao GP da Alemanha precisando de um bom resultado. Surtess largou e se manteve na segunda posição, à caça de Jim Clark, e Mairesse acelerava endemoniado tentando chegar até eles. Porém, ainda na primeira volta, ao chegar na Flugplatz seu carro perdeu sustentação e saiu voando da pista. O piloto foi arremessado longe, quebrando um braço. Pior sorte teve Gunther Schneider, de 19 anos e condutor de ambulância: atingido por uma das rodas da Ferrari aérea, morreu instantaneamente.

Mairesse passa um tempo no estaleiro, voltando já em 1964 para vencer o GP de Angola, prova extracampeonato. Mas não manteve o cockpit, continuando a guiar Ferraris apenas na Endurance – terceiro lugar em Le Mans neste ano, ao lado de seu compatriota Jean Blaton. Na categoria máxima teve apenas outra tentativa, no GP da Bélgica de 66, mas não conseguiu classificar seu BRM da Scuderia Centro Sud. Não tentaria mais os cockpits de monopostos, voltando seus esforços para onde tinha melhores resultados. Chegou em primeiro na Targa Florio daquele ano, a bordo de um Porsche 906.

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Le Mans 1968. Inacreditável alguém ter escapado dessa. Infelizmente, não escapou.

Willlys mantinha-se ativo e correndo, pois era isso que sabia fazer. Em 1968 estava no comando de um Ford GT40 privado em Le Mans. Durante algumas voltas de teste, uma porta mal fechada foi arrancada pelo vento, e o belga perdeu o controle de seu carro, batendo muito forte na parede de uma das casas existentes no circuito. Foram duas semanas em coma e vários meses em recuperação. Porém seus 40 anos já não lhe permitiam curar-se a ponto de ficar competitivo novamente, e seus médicos lhe disseram que ele não voltaria a correr.

Para Willys Mairesse, a vida sem as pistas não faria sentido. Foi para Oostende, hospedou-se em um hotel à beira do Mar do Norte, e tomou uma overdose de comprimidos. O Diabo Belga morreu em 09 de setembro de 1969, pouco antes de completar 41 anos.

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FORA DO AUTÓDROMO

Em 09 de setembro de 1978, os “Glimmer Twins” Jagger e Richards lançavam o single de Beast of Burden, dos Stones.

A tradução do título seria “Animal de Carga”, normalmente se referindo a um boi ou cavalo domesticados. Mas Keith uma vez disse que ao voltar para os estúdios ao final da década de 70, após um tempo afastado por conta das drogas, falou para Mick Jagger: “obrigado, cara, por carregar o fardo” (thanks, man, for shouldering the burden). Segundo Richards, foi aí que a música começou a nascer.


Valesi

Velho o suficiente para reclamar com propriedade, não tenho esperanças de que alguém me leve a sério. Ferrarista e fã de Jack Daniels, não necessariamente nessa ordem. Pago no máximo 40 pratas por uma foto do Button cometendo um crime.

2 comentários

Jordan Bandeira · 10 de setembro de 2015 às 11:17

Parabéns pela efeméride, Valesi.

Esse comentário conta como JS?

Valesi · 10 de setembro de 2015 às 11:28

Valeu, Jordan!!

JS não vale, mas pode contar um token a mais!

Abraço!

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