Stefan Bellof poderia ter sido campeão mundial de Fórmula 1 pela Alemanha antes de Schumacher chegar para transformar o hino tedescos na trilha sonora dos finais de corrida. Infelizmente, ele perdeu a vida enquanto pilotava um protótipo tipo C da Porsche nos 1000km de Spa. Mas não é dele que vamos falar hoje.

ManfredWManfred Winkelhock era alemão, corria na F1 e em provas de protótipos (e praticamente em qualquer coisa que tivesse quatro rodas e um acelerador), mas nunca foi cotado para ser campeão. Não que fosse um cara lento – suas posições de largada demonstravam uma capacidade de voltas rápidas acima da média – mas não teve oportunidades em carros que chegassem ao fim das provas. Ele perdeu a vida enquanto pilotava um protótipo tipo C da Porsche nos 1000km de Mosport, em Toronto, num dia 12 de agosto de 1985, três semanas antes de Bellof.

Manfred, filho de família humilde do pós-guerra, começou a encher a cabeça de gasolina respirando os vapores da oficina de seu pai em Waiblingen, praticamente no quintal de Stuttgart. Crescendo cercado de motores, começou a carreira como piloto de provas de clubes automobilísticos. Nascido em 1951, aos 25 anos destacou-se na Copa Scirocco (que apesar do nome italiano era exclusiva para modelos Volkswagen), e chamou a atenção do diretor de competições da BMW Jochen Neerspach. Era o início de uma parceria para quase toda a vida entre BMW e MW.

Pulando o estágio comum na F3, estreou no programa de novos talentos ao lado de Eddie Cheever Jr. e daquele que seria seu grande amigo nas pistas, Marc Surer. Paralelamente (outros tempos, onde uma participação de Hulkenberg em Le Mans não seria tão notada), corria com o modelo 320 Turismo na DRM – que acabou se tornando a atual DTM.

Alguns bons resultados – incluindo um pódio em Nürburgring e em um ótimo 6º lugar nas 24h de Le Mans – traziam seu nome à berlinda. Aliás, este sexto lugar geral (2º na categoria IMSA) foi a bordo de um inusitado BMW M1 Procar, dividido com o chefe Hervé Poulain e com Marcel Mignot. Inusitado pois se tratava de um “Art Car” concebido simplesmente por Andy Warhol.

Em 1980 sua carreira literalmente decolou. Um sobrevôo em Nordschleife-Nürburgring enquanto corria pela ICI Racing catapultou (sorry) sua fama. Com o acidente de Jochen Mass na Áustria, o piloto neozelandês Mike Thackwell ficou com a vaga no GP da Holanda. Uma vez que o cidadão sequer conseguiu se classificar, a Arrows chamou Winkelhock para participar da corrida seguinte. Isto o colocou no único GP da Itália da história que foi sediado fora do autódromo de Monza. Em Ímola, o alemão chegou e simplesmente… não se classificou também.

O ano seguinte foi o de sua despedida da F2, quando conseguiu um 2º lugar em Hockenheim e um 3º em Donington. Ao final da temporada, aos 30 anos e com apoio incondicional da BMW, Manfred finalmente foi contratado por Günther Schmidt para correr pela ATS na Fórmula 1. E sua carreira na categoria máxima acabou tendo intersecções interessantes com nosso tricampeão Nelson Piquet.

Manfred Winkelhock Qualifying the ATS at Long Beach 1982

ATS 82, os úncos dois pontos na F1

Já na sua segunda prova, em Jacarepaguá, após um 15º lugar na classificação do dia anterior Manfred fez uma bela corrida e chegou em sétimo lugar. Literalmente, o lugar do bobo à época, uma vez que só os primeiros seis pontuavam. Porém (ai, porém…) uma maracutaia executada com um “tanque de lastro de água” desclassificou os dois primeiros colocados, justamente os pais do Nelsinho e do Nico. Com isto, Winkelhock conseguiu um quinto lugar (à frente da Ferrari de Pironi), e seus dois únicos pontos na Fórmula 1.

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O alemão tirava suas casquinhas quando podia

Neste ano o alemão dividia os boxes com um chileno que foi notícia quando trocou uns catiripapos com Piquet, o famoso Eliseo Salazar. Como Salazar também conseguiu um quinto lugar em San Marino, a ATS terminou a temporada em 11º lugar, à frente das lendárias Osella e Fittipaldi.

83, ATS, primeiro monocoque

Carro pioneiro

O ano de 1983 viu Manfred sozinho no cockpit da ATS. Aliás, cockpit clássico e pioneiro. Gustav Brunner projetou o ATS D6 como uma única peça entre chassi e carroceria, fabricados com fibra de carbono. Ou seja, Winkelhock tornou-se o primeiro piloto a correr realmente em um monocoque – até a pintura era aplicada diretamente no carro. Porém, o motor BMW não era dos mais confiáveis, e nosso herói só terminou 4 das 15 corridas, sendo 8º sua melhor posição, em Brands Hatch, na penúltima corrida do campeonato.

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Winkelhock e Lauda, pose clássica

A temporada de 84 foi ainda pior. Tendo como companheiro Gerhard Berger em seu ano de estreia, a partir do GP da Áustria, Manfred terminou duas de quatorze corridas. Dispensado pela equipe, ainda saiu por cima, pois foi convidado por Bernie Ecclestone para substituir Teo Fabi no fechamento da temporada no Estoril, fazendo dupla com Piquet na Brabham-BMW. Chegou em décimo, numa ótima apresentação.

Chegamos a 1985 e ao fim da parceria entre Manfred e a montadora de Munique. Mesmo tendo testado com a alemã Zakspeed na pré-temporada, acabou fechando contrato com a britânica RAM-Hart, pela qual disputou 9 GPs, participando até a bandeirada em dois. Durante as férias de verão do hemisfério norte, junto com seu brother Marc Surer, embarcou para o Canadá para participar dos 1000km pela Porsche. Marc ficou com o primeiro turno, e entregou o carro para Winkelhock na volta 69; poucos minutos depois, na curva 2, um pneu estourado a 250 km/h o levou diretamente ao muro, em uma batida fortíssima. Foram 22 voltas sob safety car, pois o resgate demorou uma hora para retirar Manfred do carro. Com sérias lesões no crânio e nas pernas, o alemão chegou a ser levado ao hospital e submetido a cirurgias, mas nunca mais recuperou a consciência. Seus últimos momentos acordado foram onde sempre esteve, em uma pista de corridas.

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FORA DO AUTÓDROMO

Escocês de Glasgow, nascido em 12 de agosto de 1949, Mark Knopler é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Com técnica apurada, além de levar nas costas o Dire Straits por quase 20 anos, ainda gravou com Eric Clapton, Bob Dylan, Jools Holand, Van Morrison, Steely Dan e James Taylor, além de ser o padrinho musical de Jonny Lang. Mesmo podendo escolher entre torpedos clássicos como Brothers in Arms, Money for Nothing, Walk of Live ou Sultans of Swing, deixo vocês hoje com The Bug – menos virtuosa, mas com DNA de cabeça de gasolina.


Valesi

Velho o suficiente para reclamar com propriedade, não tenho esperanças de que alguém me leve a sério. Ferrarista e fã de Jack Daniels, não necessariamente nessa ordem. Pago no máximo 40 pratas por uma foto do Button cometendo um crime.

3 comentários

Jordan Bandeira · 12 de agosto de 2015 às 8:58

Essa foto de Manfred querendo tirar uma casquinha da modelo me fez rir muito. Ainda estou rindo, hahaha. Bela efeméride Valesi!

Mark Knopfler… o que dizer de um guitarrista que é canhoto e toca com a mão direita? Definitivamente um dos maiores de todos.

Acho que agora foi pole da Jordan…

Joshué Fusinato · 12 de agosto de 2015 às 9:06

Esse acidente do Manfred Winkelhock em Nurburgring é pavoroso!

… Falei que ia ficar bom?

Carlos Del Valle · 12 de agosto de 2015 às 16:20

Pelo jeito, acidente no tradicional lugar onde os carros decolam, como foi o Nissan do Jan M este ano

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