Piers Raymond Courage nasceu em berço de ouro em 27 de maio de 1942 em Colchester, na Inglaterra. Era o filho mais velho e herdeiro da Courage Brewery, uma cervejaria fundada em 1787 e que tem uma de suas fórmulas famosas (a da Courage Imperial Russian Stout) vendida até hoje. Estudon em Eton, junto à nobreza inglesa, e começou a se interessar por automobilismo participando de provas com seu próprio Lotus 7.

Lotus 7 1962. Carro de playboy.

Lotus 7 1962. Carro de playboy.

Passou pela F3, onde correu pela equipe de Charles Lucas com um chassis Brabham. Seu companheiro de equipe (e mecânico quando não estava atrás do volante) era um tal de Frank Williams. Começava aí uma grande amizade.

Piers, por sua educação diferenciada, era conhecido por seus modos aristocráticos e seu caráter manso e agradável, sendo apelidado como “o último gentleman do automobilismo”. Bons resultados com a Lucas lhe trouxeram um convite de Colin Chapman para correr com seu Lotus 41 na temporada de 1966 da F3, onde teve bons resultados.

O caminho óbvio era a Fórmula 1, e em Kyalami, Courage fez sua estreia no GP da África do Sul pela Lotus-BRM ao lado de Jim Clark e Graham Hill (as festas na equipe não deviam ser exatamente emocionantes). Porém já naqueles tempos pilotar um F1 era algo diferente, e Piers demorou a se adaptar. Uma série de rodadas e batidas (descrita na época como “em maior número do que é profissionalmente saudável) levaram o time a dispensá-lo após o GP de Mônaco. Ele continuou o ano correndo pela F2, em uma McLaren M4A de John Coombs, e lá se deu bem. Terminou em quarto lugar no campeonato, comprou o carro do chefe (dinheiro não faltava), ganhou algumas provas na intertemporada e acabou convencendo Tim Parnell a lhe oferecer um assento na sua equipe, a bordo de um chassi BRM.

E 68 foi um ano bem melhor: o inglês acabou marcando pontos na França e na Itália. Enquanto isso, ainda corria pela equipe de F2 do seu velho amigo Frank. Quando este começou a germinar a ideia de comprar um time para participar da Fórmula 1, foi Courage o “grilo falante” que lhe deu o empurrão moral que faltava.

Brabham BT26 – o preto-azulado mais bonito da F1

Desta forma, quando a Frank Williams Racing Cars decidiu debutar na categoria máxima do automobilismo em 1969, a escolha óbvia para o posto de piloto número um recaiu sobre o amigo inglês do dono. Com a Brabham-Ford BT26A empurrada por um Cosworth 3.0 V8  e calçada com pneus Dunlop, Piers Courage deu início à história de uma das equipes mais tradicionais de todos os tempos.

E foi um belíssimo campeonato. Courage chegou em segundo lugar nos GPs de Mônaco e dos USA, em Watkins Glen. E ainda fez o que foi considerada a melhor corrida de sua carreira, no GP da Itália em Monza, onde segurou a liderança contra carros e pilotos notadamente superiores durante a maior parte da prova, finalmente cedendo a primeira posição para economizar combustível, recebendo a bandeirada em quinto lugar. Com outra 5ª colocação na sua prova caseira em Silvestone, ele terminou o campeonato na oitava posição, com 16 pontos. Foi também em 1969 que Piers começou uma grande amizade com Jochen Rindt, daquelas que se estendem até as esposas e famílias.

Brabham BT. Mas pode chamar de 14-BIS

Brabham BT. Mas pode chamar de 14-BIS

De Tomaso de Courage. Vou resistir à tentação e não culpar os hermanos

De Tomaso de Courage. Vou resistir à tentação e não culpar os hermanos

Tio Frank resolveu tentar um chassi novo para a temporada de 1970, e levou seu piloto preferido para o acordo com o argentino Alejandro de Tomaso. Mas o De Tomaso-Ford 505, apesar de equipado com o mesmo motor Cosworth, era uma jabiraca muito mal nascida. Courage sofreu muito nas primeiras corridas, mal conseguindo manter o controle do carro em linha reta. Aos poucos, contando com a expertise mecânica de Williams, eles estavam vendo uma evolução.

 

Nina Hindt e Lady Sally Courage, cronometrando os tempos dos maridos em Zandvoort, 1970. Ao final do ano, ambas estariam viúvas.

O GP da Holanda de 1970 aconteceu no mesmo 21 de abril em que a seleção brasileira meteu aquele passeio na Azzurra no estádio Azteca, ficando definitivamente com a Jules Rimet. Porém no autódromo de Zandvoort o clima era muito mais melancólico, pois seria a primeira corrida sem Bruce McLaren, que tinha morrido cinco dias antes em Goodwood, enquanto testava um Can-Am. Piers conseguiu uma boa nona posição no grid e já estava em quinto quando, na volta 22, saindo do Tunel Oost o De Tomaso encontra uma pequena “lombada” de areia que o vento marinho tinha acumulado na pista, o que foi suficiente para lhe quebrar a suspensão dianteira ou a caixa de direção, levando-o diretamente para o barranco à frente; o impacto foi tão forte que o motor foi parar longe do carro, e uma das rodas dianteiras acertou violentamente a cabeça do piloto jogando seu capacete longe e matando-o imediatamente – o que pode ser considerado um golpe de misericórdia, uma vez que o chassi do seu carro era feito de liga de magnésio (ideia muito inteligente, não?), que se inflamou com uma explosão tão intensa que queimou as árvores próximas.

rindt podio

Jochen Rindt. Uma vitória não comemorada.

A corrida foi vencida por Rindt, que depois disse ter reconhecido o capacete de Courage ao lado da pista. “Não sei se teria forças para disputar posição se alguém chegasse em mim; e se minha liderança não estivesse aumentando a cada volta, eu provavelmente teria desistido”, ele disse. Ao chegar aos boxes após a bandeirada final, Rindt empurrou Colin Chapman e seu mecânico, que vinham comemorar a vitória, e foi direto para seu empresário Bernie Ecclestone: “ele morreu?”. Com a confirmação da perda do amigo, Jochen protagonizou um dos pódios mais tristes da história, e naquela semana anunciou que abandonaria a Fórmula 1 ao final da temporada. Pouco mais de dois meses após, Rindt morreria em Monza e se tornaria o único campeão póstumo da história. Sua viúva declarou, anos depois, que ele planejava dedicar o campeonato de 1970 a seu amigo Piers Courage.

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Fora do autódromo

No poker, temos o costume de dar apelidos a algumas mãos quando contamos uma grande jogada ou um bad beat. Assim, um par de ases se transforma em American Airlines, dois reis são os Cowboys ou o King Kong, e um KJ vira um Kojack. A porcaria de um 10-2 é conhecida como Doyle Brunson, pois foi com ela que um dos maiores de todos os tempos venceu dois campeonatos mundiais seguidos.

Mas a mão mais conhecida, e com a melhor história, é A8: a Mão do Homem Morto (Dead Man’s Hand), graças a Wild Bill Hickok.

James Butler Hickok (27/05/1837 – 02/08/1876) foi um personagem real famoso no velho oeste americano. Sua perícia com os dois Colt 1851 Navy Model que carregava só tinha paralelo com sua habilidade no poker.

220px-Wild_Bill_Hickok_sepiaWild Bill fugiu (como criminoso) para o oeste após uma briga em Illinois, onde morava; ele juntou-se aos “Jayhawkers”, milícia independente no Kansas, onde se tornou amigo de William Cody, que mais tarde seria conhecido como Buffalo Bill. Em 1961 alistou-se ao exército da União durante a Guerra Civil americana, atuando como espião infiltrado entre os Confederados, e após o final da guerra conseguiu um cargo de US Marshal no Kansas – algumas histórias de duelos e tiroteios protagonizados e vencidos por ele nessa época ficaram famosas.

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Após finalmente criar raízes como xerife de Abilene, Hickok viajava constantemente para participar de torneios de poker na região, como o do Nuttal & Mann’s Saloon em Deadwood (adoro estes nomes!) na Dakota do Sul. Wild Bill sempre procurava sentar-se de frente para a porta dos lugares onde jogava, mas este Sallon tinha uma porta dos fundos que ele não conhecia. Foi por ela que “Crooked Nose” Jack McCall (não é um espetáculo? Eu queria um nome desses) entrou e gritando: “Damn you! Take that!”, colocou uma bala na nuca de Hickok. Jack tinha perdido uma quantia razoável de dinheiro para Wild Bill em um jogo alguns meses antes.

1024px-Dead_man's_handQuando foi alvejado, Wild Bill tinha acabado de descartar uma carta – no poker fechado da época, era possível uma troca de quantas cartas você quisesse entre as cinco que recebia. Ele ainda não tinha em mãos a substituta, então ao cair para frente seu jogo era formado apenas por quatro cartas: dois ases e dois oitos.


Valesi

Velho o suficiente para reclamar com propriedade, não tenho esperanças de que alguém me leve a sério. Ferrarista e fã de Jack Daniels, não necessariamente nessa ordem. Pago no máximo 40 pratas por uma foto do Button cometendo um crime.

8 comentários

Claudio de Souza Alves · 27 de maio de 2015 às 1:24

Tamo junto! Vou ler agora!

Fabiano Forte · 27 de maio de 2015 às 7:51

Muito bom! Mais um piloto de que eu nunca tinha ouvido falar!

    Valesi · 27 de maio de 2015 às 10:43

    Pois é, eu só sabia do acidente, do qual falamos brevemente num podcast antigo.

Joshué Fusinato · 27 de maio de 2015 às 10:23

Tá aí um cara que tinha potencial pra ser campeão. Não na Williams, que naquela época era nanica, mas se sentasse numa Brabham, ou coisa do tipo. Piloto do tipo esforçado, sem o talento natural de um Jim Clark, mas excelente!

E eu sempre achei que a mão do morto era 2 e 8… Mas de Poker eu entendo tanto quanto o escriba de Endurance! 😛

Grande Valesi!!!!

    Valesi · 27 de maio de 2015 às 10:46

    Hahahaha, fair enough.

    Vamos marcar uma mesa de poker na noite de Le Mans; enquanto a corrida estiver naqueles momentos mais calmos, jogamos umas mãos.

Belo, rápido e azarado | Boletim do Paddock · 25 de fevereiro de 2018 às 4:16

[…] Piers de Courage, o último gentleman da F1 e primeiro piloto da Williams (já falamos dele em um artigo lá no Podcast F1 Brasil). Se você for supersticioso, dá até pra dizer que não seria prudente […]

BPBEATS 27 | Graxa ou Nutella? Nenhum dos dois, coragem • BP • Boletim do Paddock · 2 de outubro de 2019 às 23:56

[…] lll CEV: Rindt era amigo íntimo de Piers, as famílias se frequentavam, e ele ficou arrasado com a perda do parceiro. Quando escrevi alguma coisa sobre Courage no PF1BR contei um pouco essa história. […]

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