Muito se falou da decisão polêmica da FIA dessa semana (sim, porque toda semana vem uma nova), ao banir as conversas de rádio entre piloto e equipe, no que concerne à pilotagem do carro.

É realmente complicado de explicar, mas vou tentar: equipe e piloto não podem mais trocar informações entre si que permitam uma melhor pilotagem do carro.

Por exemplo, a equipe não pode mais informar ao seu piloto que, em determinada curva, seu companheiro de equipe está usando uma marcha maior ou menor, o que lhe garante melhor velocidade, e que deveria se tentar o mesmo.

Assim como as últimas imposições de regulamento esportivo da FIA, não fica claro até onde isso se estende. Se a equipe quiser saber as condições dos pneus, talvez pensando em antecipar uma parada, intentando um undercut (todo mundo que me lê sabe o que é undercut, né?!), seria uma influência na pilotagem deste? Tem que ver isso aí…

Na hora em que li a notícia, imediatamente minha cabeça viajou para um tempo onde as coisas eram muito mais fáceis, e mais perigosas… A imagem rotunda de Alfred Neubauer chegou feito um raio.

Não sabe quem é? É esse distinto senhor aí embaixo.

O mito.

O mito.

 

Alfred Neubauer foi o grande comandante da maior equipe de corridas pré-F1, e o homem que fundou um mito. A Mercedes Benz e suas Flechas de Prata devem grande parte de seu sucesso nas pistas na década de 30 à ele (parte também à Hitler e seu investimento pesado na indústria automobilística, com fins de propaganda, mas divago…)

Nascido em 29 de março de 1891, no Império Austro Húngaro, começou no exército de seu país o ofício de mecânico. Trabalhou como piloto de testes após a Primeira Guerra Mundial para a fábrica da Austro-Daimler, onde foi subordinado de ninguém menos que Ferdinand Porsche. Também pilotou em corridas oficiais no começo da década de 20, até que, ao perceber que não era tão “bota” assim, inventou pra si a função de Racing Team Manager.

E sua função se mostrou primordial para o sucesso de muitos até hoje. Entendam, senhores, que no começo do Século XXI, após as largadas os pilotos se encontravam completamente alheios ao que aconteciam à volta deles, chegando ao cúmulo de, não raro, vencerem corridas e nem saberem disso, até o momento que parassem o carro nos boxes.

Sem Neubauer, não teríamos “HOJE NÃO! HOJE NÃO! HOJE SIM… HOJE SIM?”

 

Pensando nisso, Neubauer criou um sistema de placas, bandeiras coloridas e sinais, para informar os pilotos dos acontecimentos na pista, e da mesma forma receber feedback dos Ases da equipe.

Àquela época, o domínio alemão nas pistas era acachapante. Mercedes e Auto Union eram disparadas as melhores equipes nos Grand Prix, e os melhores pilotos estavam em suas fileiras, lendas como Rudolf Caracciola, Bernd Rosemeyer, e Hermann Lang.

W-154 (1939), o chefe e seus comandados, Richard Seaman, Manfred von Baruchitsch, Herman Lang y Rudolf Caracciola

 

Qualquer tipo de desenvolvimento de uma dessas duas escuderias seria o diferencial para vencer ou perder. A Auto Union desenvolveu seus bólidos de motor central V16, enquanto a Mercedes Benz apostava no conjunto leve, de motor dianteiro V8 com Supercharger, e o sistema de comunicação implantado por Neubauer, para vencer.

Mercedes e Neubauer também criaram uma lenda nas pistas… A lenda das Flechas de Prata.

Caracciola à esquerda do Auto Union de Bernd Rosenmeyer, um dos maiores pilotos da história, na largada do GP da Suíca de 1937

 

Lenda essa que qualquer cabeça de gasolina deve saber, mas ainda assim, vou contar: A Mercedes chegou para sua primeira corrida, com seus carros pintados com o branco alemão (sim, as cores da Alemanha nas pistas eram BRANCAS), porém o carro ultrapassou o limito máximo de peso permitido, de 750kg, por apenas 1kg. Neubauer, espertíssimo, ordenou que os mecânicos raspassem a pintura do carro, o que fez com que a cor do alumínio da carroceria aparecesse, criando assim um mito… bonito não? Pena que é uma grande falácia do nosso personagem principal.

Neubauer inventou essa história não sei com que motivo, uma vez que a primeira corrida da Mercedes Benz foi disputada na categoria Formula Libre, e como o nome faz sugerir, não havia limite de peso… além do mais, existem registros históricos do carro pintado de branco. Falador esse gordinho!

Com a eclosão da segunda guerra, Neubauer voltou à sua posição de mecânico do exército, ressuscitando a equipe Mercedes em 1954, contando como pilotos Juan Manuel Fangio e Stirling Moss.

Fangio, Neubauer e Moss, 1954. Que Dream Team!

Fangio, Neubauer e Moss, 1954. Que Dream Team!

 

O domínio das Flechas de Prata foi absurdo, com seis vitórias em nove etapas e o título do campeonato de pilotos para Fangio, na temporada que viu o nascimento de mais uma lenda das pistas: a primeira vitória da Scuderia Ferrari (Aê Valesi!), com José Froilán Gonzáles (3 acentos em 3 nomes!) no GP da Inglaterra.

No ano seguinte, a hegemonia permanecia, até que no dia 11 de junho de 1955, na volta 34 das 24 horas de Le Mans, o pior desastre da história do esporte a motor interrompeu de forma abrupta a carreira da Mercedes, quando o carro pilotado por Pierre Levegh voou sobre a plateia em plena reta dos boxes, a 300Km/h, explodindo em seguida. 78 pessoas faleceram naquele dia.

O princípio do fim

O princípio do fim

 

Com a tragédia, Neubauer abandona o esporte, e a Mercedes só voltaria e ter uma equipe de corridas na F1 em 2010.

Como o post começou sobre a nova ordem da FIA, e lembrou o engenhoso esquema de Neubauer de comunicação com seus pilotos, fica ao leitor a pergunta: O que fazer para contornar o problema das comunicações entre piloto e equipe, após essa restrição? Seria o sistema de bandeiras de Neubauer uma alternativa?

A minha é essa, ó:

Stop! Hammer Time!

Stop! Hammer Time! (Clique para ampliar)

 

P.S.: O título foi retirado do filme homônimo, estrelado pelo gênio Bill Murray e pela maravilhosa Scarlett Johansson, dirigido por Sophia Copolla. Assistam! E Se só minha recomendação não é o suficiente, deixo vocês com a imagem dos primeiros 10 segundos de filme.

Sem palavras...

Sem palavras…


2 comentários

Valesi · 13 de setembro de 2014 às 4:00

Estava achando o texto muito bom, até chegar à última imagem e me esquecer completamente do que eu li.

    Eduardo Bacelar · 13 de setembro de 2014 às 11:48

    Tamoo junto valesi!!

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