Não sei vocês, mas eu já estou respirando os ares do GP da Hungria. Essa pausa de três semanas foi realmente cruel para a maioria dos cabeças de gasolina. Pra alguns, o retorno da temporada nessa praça clássica é de torcer o nariz, mas não é o meu caso.

Ô pistinha divisora de opiniões!

Ô pistinha divisora de opiniões!

A etapa magiar é contraditória: o circuito da cidade de Mogyoród é estreito, com poucas retas, curvas de raio longo e média velocidade, chicanes a perder de vista e extremamente difícil de ultrapassar, o que pode gerar pouca ação na pista, privilegiando corridas táticas.

Olhando o copo meio cheio, é a etapa onde se pode ver carros como a incipiente Williams Renault de Thierry Boutsen segurando a superior McLaren Honda de Senna para uma grande vitória em 1990, ou então uma endiabrada Arrows Yamaha de Damon Hill deixar qualquer uma maluco, com uma mudança de estratégia no meio da corrida, liderar até perder rendimento nas últimas voltas de 1997… E um idiota veloz cometer a melhor corrida de sua carreira.

Um maluco em um carro vermelho, com o costal #27... Não é por nada que o Comendador escolheu o Brutânico!

Um maluco em um carro vermelho, com o costal #27… Não é por nada que o Comendador escolheu o Brutânico!

A Ferrari de 1989 era pura revolução: um potente V12, após o banimento dos motores Turbo, o câmbio semiautomático, com acionamento por borboletas atrás do volante, e o inglês Nigel Mansell, último piloto escolhido para a linha de frente da Scuderia, eram a esperança de anos melhores, e especialmente de criar competição contra a magnânima McLaren.

Apesar da vitória em Jacarepaguá, os vermelhos não vinham bem no campeonato. Gerhard Berger havia abandonado todas as nove etapas até o GP da Hungria (spoiler: abandonaria este também), e Mansell só havia conseguido mais três resultados nos pontos, além da vitória no Brasil. Curiosamente, três pódios – França, Inglaterra e Alemanha. E começou tudo errado na Hungria…

Mansell fez só o décimo segundo tempo nos treinos classificatórios. Desde o primeiro treino livre o bigode começou a coçar pela falta de rendimento com os rápidos pneus de classificação. Numa estratégia quase suicida, considerando as chances de ultrapassagem na pista húngara, Nigel resolveu focar seus esforços no acerto do carro para a corrida, usando os pneus Goodyear mais moles, ao contrário da absoluta maioria.

3. IMG_5383 Ferrari 640 1989

Olha que coisa de doido essa asa traseira!

No warm up a estratégia já se mostrou correta, com o residente da Ilha de Man conquistando o primeiro tempo. Mas haviam onze desafios em forma de carros à sua frente.

Largada. Apesar de largar no lado sujo da pista e ter sido bloqueado em um primeiro momento por uma fila de três carros, Mansell passa a primeira volta na oitava posição. Até o 19º giro permanece estanque, e aí começaram os ataques.

Alessandro Nannini foi para os boxes e perdeu a posição. Em seguida, Thierry Botsen e Alex Caffi foram engolidos. Já chegamos na zona de pontuação. Berger encostou, faltam mais três: Prost, Senna e o surpreendente Patrese, de Williams, que havia conquistado a Pole Position e vinha segurando os líderes.

O carro de Nigel estava perfeito e a diferença para Prost foi evaporada rapidamente. Magistralmente, Mansell sai da curva 4 com muito mais tração que Prost, deixando o narigudo para trás de forma inapelável.

Sem dívida, um dos quatro grandes dos anos 80.

Sem dívida, um dos quatro grandes dos anos 80.

Senna passou Patrese (que estava com problemas no radiador) pela liderança da prova, e o italiano foi prontamente engolido pelo inglês. Só faltava Senna… e quem dizia que o Trulli era uma chicane ambulante, não imagina o que Senna era capaz de fazer para defender uma posição.

Preparando o bote.

Preparando o bote.

Eis que surge, na mesma curva 4 que já havia presenciado a humilhação sofrida por Prost, a Onix de Stefan Johansson se arrastando feito um urso a ponto de hibernar. Senna dorme por um átimo de um segundo, antes de virar o volante para a esquerda, dando uma volta na Onix moribunda e se colocando no meio da pista.

Mansell, oportunista que só, guinou ainda mais para a esquerda, quase colocando as rodas na grama, e ultrapassa Johansson e Senna ao mesmo tempo… E abre uma vida de vantagem.

Na volta 66, Nigel faz a volta mais rápida da prova, e vence com mais de 20 segundos de vantagem para Senna. Isso só prova que, mesmo contra todos os prognósticos, até uma corrida que muitos consideram anacrônica e sonolenta pode trazer muitas emoções. Para isso, é só combinar inteligência, estratégia e um idiota rápido.

Fiquem com essa demonstração do Leão de que não existe pista ruim de ultrapassar e até a próxima senhores!

 

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12 comentários

Gabriel Narukami · 23 de julho de 2015 às 0:10

Gosto pra caramba de ler as Efemérides da Semana, com isso, meu cknhecimento e paixão pela F1 vsi crescendo ainda mais. Tá de parabéns.

Acho que precisariam de mim no GP da Hungia pra vencer :v

    Joshué Fusinato · 24 de julho de 2015 às 8:39

    É Kitsch, mas esse tipo de comentário é o combustível para continuar escrevendo! Valeu Gabriel!

Valesi · 23 de julho de 2015 às 0:33

Pra completar, uma das mais belas Ferraris de todos os tempos.

Belo texto, nobre.

    Joshué Fusinato · 24 de julho de 2015 às 8:39

    😀

Lucas Pereira Martins · 23 de julho de 2015 às 9:48

Nada como um idiota rápido e bigodudo para apimentar um GP em um autódromo que parece uma caneca de chopp.

Grande texto!

    Joshué Fusinato · 24 de julho de 2015 às 8:27

    Nunca tinha visto o traçado da Hungria como uma caneca de chopp… A corrida vai ficar mais interessante a partir de agora!

Mateus Ferreira · 23 de julho de 2015 às 10:54

Brilhante texto. Tão brilhante como essa corrida do Nigel Mansell.

    Joshué Fusinato · 24 de julho de 2015 às 8:37

    Valeu Mateus Ferreria da ArtColorGráfica! 😉

Jordan Bandeira · 23 de julho de 2015 às 18:03

O GP da Hungria e suas surpresas. Quem também não lembra da improvável vitória de Button pela Honda em 2006? E quando o motor da Ferrari de Massa foi pra ponte que partiu e a vitória caiu no colo de Heikki Kovalainen em 2008?

Assim como Gabriel, sempre espero pelas efemérides (ainda me acostumo com essa palavra) aqui do PF1BR.

Texto mágico, Joshué.

    Jordan Bandeira · 23 de julho de 2015 às 18:05

    Ah, sim… Parece que Enzo Ferrari tinha uma queda por pilotos loucos ao volante: Villeneuve pai, Berger e Mansell são apenas alguns exemplos.

      Joshué Fusinato · 24 de julho de 2015 às 8:30

      Von Tripps, Bandini, Hawthorne, Irvine (esse pós Enzo ferrari, mas se encaixa na descrição)… Existe um padrão aí!

Rafael Amico · 30 de julho de 2015 às 15:35

Mais um texto com o selo Fusinato de qualidade! E sim, esse idiota veloz é meu piloto favorito de todos os tempos!

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