Semelhanças só nos noticiários

Semelhanças só nos noticiários

A F1 foi pega de surpresa essa semana com duas notícias que, na aparência podem ser parecidas, mas se olharmos a fundo são diametralmente opostas.

Primeiro, a Red Bull confirmou a dupla de pilotos da sua equipe satélite, a Toro Rosso, para o ano que vem, jogando Jean-Éric Vergne pra escanteio, e promovendo o mais novo (mesmo!) piloto de seu programa de desenvolvimento, Max Verstappen, atualmente com 16 anos (não disse?).

Hoje pela manhã, André Lotterer, tricampeão das 24 horas de Le Mans com a Audi, e que também defende a marca Lexus no Super GT e na Super Formula japonesas, foi anunciado como piloto da Caterham para este final de semana, em Spa.

Dois anúncios de estreias de pilotos em um único final de semana, e estas estreias não podem ser mais diferentes entre si do que as descrições acima dão a entender.

O "guri de tudo" abusadinho

O “guri de tudo” abusadinho

Max Verstappen não pode tomar champanhe no pódio, se isso acontecer (no Bahrein ele nem poderia mesmo, lá eles celebram o pódio com suco de maçã). Também não pode chegar ao autódromo por seus próprios meios, já que não possui carteira de motorista.

Mas ele é um fenômeno. Começou a correr de kart aos 7 anos, na Holanda, de onde é natural. O primeiro título veio em 2006, na categoria 125cc Rotax Max, e em nenhum dos anos até sua saída do kart, ficou sem algum título, tendo com destaques os WKS World Series em 2010 e 2011, o WSK Master Series em 2012, e no ano passado os títulos das categorias KZ e KF Europeus e KZ mundial.

E o guri continua fazendo chover na F3 Europeia. No primeiro teste com o bólido, em dezembro de 2013, se destacou positivamente pela velocidade. No mesmo mês, fez testes com carros da Formula Reanult, caminho natural para um piloto recém saído das fraldas do kart, onde colocou tempo em participantes regulares do campeonato, como Steijn Schothorst e Matt Parry. A escolha pela F3, pulando etapas, se mostrou acertada.

O filho de Jos “The Boss” Verstappen está fazendo chover esse ano. Faltando 6 corridas, res rodadas duplas, em Imola e Hockenheim, o pivete está em uma briga cabeça a cabeça contra Steban Ocon, francês líder do campeonato, ambos vencendo oito provas. A vantagem de Ocon está nos pódios: 19 a 13 para o conterrâneo do Jean Alesi.

youtube http://www.youtube.com/watch?v=p_qX3jf1kSk&w=560&h=315

Ele com 17 anos vai estar lá… E você aí…

E no momento em que Max Verstappen sentava a bunda num Kart competitivamente pela primeira vez, André Lotterer havia desistido de uma carreira convencional. Bem sucedido nas categorias de base, com destaque para os desempenhos nas F3 alemã e britânica, apesar de não ter conquistado títulos, foi contratado em 2002 pela Jaguar (lembram dela?) como piloto de testes.

Direto do túnel do tempo

Direto do túnel do tempo

Por muito pouco não virou piloto titular no ano seguinte, com a aposentadoria de Eddie Irvine e a mudança pra McLaren de Pedro de Lara la Rosa, mas a bagunça da gerência da Jaguar não só o deixou sem assento titular, como se viu na rua da amargura.

Ainda no final de 2002, tentou a sorte na última etapa da Champ Car, aquela categoria onde os pilotos iam morrer no começo dos anos 2000. Fez bonito no Autódromo Hermanos Rodríguez, qualificando em antepenúltimo e chegando em 12º, marcando um pontinho numa prova de paciência e recuperação.

Em 2003 André mudou-se de mala e cuia pro Japão, competindo desde então nas duas categorias mais importantes do país, a Super Formula e o Super GT, conseguindo excelentes resultados em ambos, com destaque para o vice em 2004 no Super Formula (ano em que Verstappen ESTREOU NO KART!), o campeonato da mesma categoria em 2011, e os títulos do Super GT em 2006 e 2009.

Essas corridas (também) deveriam ser transmitidas no Brasil!

Essas corridas (também) deveriam ser transmitidas no Brasil!

Esse desempenho destacado nas corridas de turismo japonesas levou ao convite de Colin Kolles (sim, o atual manda-chuva da Caterham na F1) para pilotar um Audi R10 privado na edição de 2009 das 24 Horas de Le Mans, minha corrida preferida do ano.

Acompanhado de Charles Zwolsman e Narain Karthikeyan, sendo que este último deslocou o ombro e não correu, fez uma corrida sólida, terminando em 7º, o que levou ao convite para ser piloto de fábrica.

Lotterer, um piloto muito completo (e na minha opinião o melhor dos atuais pilotos da Audi, à exceção de Mr. Le Mans Tom Kristensen) viveu o sonho por 3 vezes, em 2011, 2012 e este ano, sempre em companhia de Marcel Fässler e Benoît Tréluyer, também sendo vitorioso no FIA World Endurance Championship em 2012.

Isso é que o cara é capaz de fazer…

A notícia da estreia do bebê Max Verstappen pegou todos de surpresa. Um piloto tão novo, pulando etapas de formação, tanto de caráter quanto de piloto, pode dar muito errado. Mas a experiência demonstra que pode dar certo, afinal, o único campeão da GP2 que venceu um título da F1 foi Lewis Hamilton, enquanto pilotos como Raikkonen e Button têm taças de campeão pra colocar na estante de casa, pulando muitas etapas da base também.

O problema, na minha opinião, foi a porta pela qual o menino Verstappen decidiu entrar na F1: a Red Bull e seu moedor de carne em forma de cockpit.

Bons pilotos já passaram pela equipe dos energéticos: Buemi, Alguersuari, Liuzzi e Bourdais podem não encher os olhos de nenhum cabeça de gasolina, mas são caras competentes e que poderiam alcançar melhores assentos na F1, não fossem os contratos amarrados com Dietrich Mateschitz e seus asseclas. Sou só eu ou o Buemi não seria um bom segundo piloto pra uma Ferrari da vida, por exemplo?

Esse experimento deu relativamente certo com Daniil Kvyat, o soviético que estreou esse ano pela Toro Rosso. Com credencial de campeão da GP3 do ano passado, vem fazendo uma temporada correta com o equipamento que tem, deixando o companheiro de equipe Jean-Éric Vergne tão à sombra, a ponto de causar sua demissão.

Será que dura?

Será que dura?

Mas isso não quer dizer que o raio caia duas (ou quatro, se contarmos Vettel e Riccardo, já consolidados, e que as promessas Kvyat e Verstappen vinguem) no mesmo lugar.

A contratação de Lotterer pela Caterham para apenas a corrida de Spa é estranha também. Normalmente essa história de colocar pilotos pra sentar e pilotar, sem ter participado do desenvolvimento do carro, só gera problemas e maus resultados. Quem aí se lembra de Badoer e Fisichella na Ferrari em 2009, depois do acidente do Felipe Massa?

As happy as pig in sh*t!

As happy as pig in sh*t!

Por que Lotterer, um cara reconhecidamente como um dos melhores pilotos da sua geração, com carreira consolidada, tanto nos monopostos japoneses quanto no Endurance, se sujeitaria a sentar na cadeira elétrica da Caterham, por um único final de semana? Só pra “matar o tesão”, como Emerson Fittipaldi fez com a Spirit-Hart nos testes de pneus de 1984?

Além do mais, a equipe sai perdendo ao ceder o carro do Mito Kamui Kobayashi para Lotterer. Afinal de contas, ninguém espera que Marcus Ericsson seja a solução da equipe para alcançar o décimo lugar do Campeonato de Construtores, certo? Dessa forma, tiram o piloto mais competente da equipe, para uma aventura de um final de semana… Tem que ver isso aí.

Pra terminar, deixou vocês com um pensamento que me ocorreu: Max Verstappen, que nem barba tem, é anunciado como piloto de F1 na mesma semana que outro piloto, de cabelos brancos, vai fazer sua estreia na categoria.

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3 comentários

Valesi · 20 de agosto de 2014 às 18:38

Max Verstappen nasceu dois dias após do GP de Luxemburgo de 1997, em Nurburgring.
O pódio dessa corrida foi Jacques Villeneuve (Williams), Alesi (Benetton) e Frentzen (Williams). Rubinho abandonou por problemas de câmbio. Jos Verstappen rodou sua Tyrrell e abandonou na volta 50.
Tô velho.

Sandro Bernardi · 20 de agosto de 2014 às 21:57

É sempre legal quando um piloto já “velho” finalmente ganha sua chance! Até porque a Caterham não tem lá muito a perder, tem? Kobayashi já é meio inconstante mesmo… E vai ser dificílimo superar a Marussia e seus preciosos 2 pontinhos esse ano. Vai que dá sorte de “principiante”?

Já o filho do Verstappen, putz… Na boa, acho isso muito errado! Dá a impressão de que a Red Bull financia mais pilotos do que poderia, mas o funil da F1 é muito estreito, e acaba sempre deixando os coitados na mão. Esqueceram de vez do Félix da Costa? Vão abandonar Vergne sem a menor consideração, assim como fizeram com vários outros antes? Muito chato isso…

    Carlos Del Valle · 21 de agosto de 2014 às 10:02

    Fiquei feliz porque sou admirador do Lotterer, quem acompanha o WEC / Endurance consegue notar que ele é diferenciado e acima da média. Mas é uma fogueira, né? Já pensou, a última vez que você dirigiu um F1 foi em 2002 (há 12 anos), e de repente você tem que encarar Spa de uma hora para outra… Sinistro. Tomara que não aconteça o que aconteceu com Badoer e Fisichella…

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